Aventura-te a seguir Jesus

Naquele dia em particular, Jesus estava rodeado por uma multidão, facto que por si só não era digno de relevo, afinal as multidões eram uma constante no ministério de Jesus. O que tornou aquele momento único foi o motivo da multidão. Noutros momentos, as multidões acorreram por causa dos milagres, mas ali não. Esta multidão correu para escutar o Seu ensino. Apertava-O,
desejando escutar a palavra de Deus. Mas estranhar o quê, se a presença de Jesus era arrebatadora e o Seu ensino eletrificante? A atmosfera era contagiante e o cenário fotográfico… na praia, junto ao lago. Em contraste, juntaram-se alguns pescadores desembarcando o seu desânimo. Não partilhavam da euforia da multidão, antes lavavam as redes cheias de nada depois de uma noite de trabalho em vão.

Jesus entrou num desses barcos e pediu que o afastassem um pouco da terra. Simão Pedro acedeu e, do barco, Jesus ensinou a multidão. Havendo terminado, disse a Simão Pedro – vamos pescar, e este, apesar das reservas, obedeceu. Entretanto, ao ver o milagre em forma de uma grande pescaria, Simão prostrou-se e exclamou – Senhor, afasta-te de mim, que sou um homem pecador. Jesus chamou-os para serem seus discípulos e a cena terminou com as seguintes palavras: “E, levando os barcos para terra, deixaram tudo, e o seguiram”. Este relato pode ser encontrado no Evangelho de Lucas 5:1-11.

Mas, mais tarde, não muito longe dali a multidão abandonou Jesus (1) , num contraste triste e surpreendente! O que aconteceu? A multidão sentia-se defraudada. Mas como? Se as promessas de Jesus não falham? Não foi com as promessas de Jesus que a multidão se sentiu defraudada; a multidão ficou defraudada com as suas próprias expectativas.

Ser discípulo de Jesus é segui-Lo, e segui-Lo é permanecer na Sua palavra e isso é uma jornada maravilhosa, mas há um preço. Sim, preço parece-nos a palavra apropriada, pois certa vez, falando sobre o discipulado, Jesus usou a seguinte parábola: “Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se senta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar? Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a escarnecer dele, dizendo: Este homem começou a edificar e não pôde acabar”(2). Quantos não têm começado a seguir Jesus sem terem a noção dos custos e deixaram a empreitada a meio? Sim, deixaram a empreitada a meio por causa do preço do discipulado.

Na verdade, considera-se que o preço do discipulado está entre os motivos que mais contribui para que as pessoas deixem de seguir Jesus, mas muitos ignoram esta realidade. Noutra parábola, Jesus reforçou a ideia: “Porém o que foi semeado em pedregais é o que ouve a palavra, e logo a recebe com alegria; mas não tem raiz em si mesmo, antes é de pouca duração; e, chegada a angústia e a perseguição por causa da palavra, logo se ofende” (3) . O preço do discipulado é uma ideia desconhecida para muitos, pois vivem um cristianismo massificado muito diferente daquilo que Jesus ensinou.

Noutra ocasião, Jesus colocou o preço do discipulado nos seguintes termos: “E qualquer que não levar a sua cruz, e não vier após mim, não pode ser meu discípulo”(4). Quão erradamente muitos têm citado a ideia de “levar a cruz”. Como aquele que sofre de artroses e desabafa – “É a minha cruz”, ou aqueloutra que acerca do marido bêbado e iracundo diz – “É a minha cruz”. Mas estas analogias estão erradas pois “[Levar]… A cruz não é uma tragédia nem infortúnio; é o sofrimento resultante da união com Cristo. A cruz não é sofrimento casual, mas sofrimento necessário. A cruz não é sofrimento relacionado com a existência mundana, mas sofrimento próprio da existência cristã. A cruz não é, em essência, apenas sofrimento, mas sofrimento e rejeição, e rejeição entendida no sentido mais rigoroso, isto é, rejeição por causa de Jesus Cristo, e não por qualquer outro tipo de atitude ou confissão.” (5)

Se seguimos, realmente, a Jesus e se vivemos, realmente, as Suas palavras, então é inevitável que, nalgum momento, se faça sentir o sofrimento e a rejeição. Afinal, disse Jesus: “Se me perseguiram a mim, também vos perseguirão a vós”(6). Por outro lado, se seguirmos realmente a Jesus, então a nossa resposta diante das dificuldades não será diferente da de Pedro: “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna.”(7).

Paulo Rosa

Pastor evangélico
Aveiro

 

(1) João 6:66; (2) Lucas 14:28-30; (3) Mateus 13:20,21; (4) Lucas 14:27; (5) BONHOEFFER, Dietrich, Discipulado, Editora Mundo Cristão, 1ª edição, pág. 63; (6) João 15:20; (7) João 6:68.

Artigo da revista: Novas de Alegria